Ninguém me contou que ser pai muda de forma todos os anos. A paternidade que eu imaginava antes de ter filhas não é a que eu vivo hoje, com elas já maiores, cada uma com seu jeito, suas manias, seus assuntos preferidos.
No começo, pai é presença física. Trocar fralda, acordar de madrugada, aprender a segurar direito. Depois vem a fase de ensinar: amarrar o sapato, atravessar a rua, contar até dez. E em algum momento, sem avisar, a função muda de novo. Já não se trata tanto de fazer pelas filhas, mas de ficar por perto enquanto elas fazem sozinhas.
Isso me pegou de surpresa. Eu estava preparado pra proteger, não pra assistir. E assistir, na prática, é mais difícil. Dá vontade de interferir, de corrigir antes do erro acontecer, de poupar o tempo que elas vão gastar aprendendo algo que eu já sei. Mas não é esse o trabalho. O trabalho é deixar errar no tamanho certo do erro, e estar ali quando precisar.
Hoje tenho três filhas que crescem ao mesmo tempo, cada uma numa velocidade diferente, mesmo sendo trigêmeas. Uma gosta de um assunto, outra de outro, e não existe fórmula que sirva pras três ao mesmo tempo. O que funciona é prestar atenção em cada uma, separadamente, mesmo quando o dia não dá tempo pra isso.
Ser pai advogado, com agenda cheia de prazo, não facilita. Mas também ensina uma coisa que levo pro escritório: presença não se mede em tempo total, se mede em atenção quando se está presente. Dez minutos de atenção inteira valem mais que uma hora distraída junto.
Não tenho fórmula pronta. Tenho só a impressão, a cada ano, de que entendi menos do que pensava no ano anterior. E isso, com o tempo, parei de achar ruim.
